Sobre empenho e desempenho
Na teoria, quando mais uma pessoa se esforça, melhor será seu resultado. Mas nem sempre as coisas ocorrem como esperado. Nesta matriz, um quadrante é vantajoso. Como interpretar os outros três casos?
Nas condições ideais, o desempenho deveria ser uma função linear do empenho. Esperamos que um decorra do outro. Mas o mundo real não lida bem com coerências óbvias.
Na prática, a teoria é outra: há bons resultados sem muito empenho, assim como muito esforço que não dá em nada.
Nesta matriz, falaremos dos casos coerentes (empenho e desempenho em níveis semelhantes), mas nossa atenção estará concentrada nos casos atípicos (quando empenho e desempenho descasam). Existe muito a aprender com situações que, pelo menos aparentemente, fogem à lógica.
Os eixos
Eixo horizontal: empenho
Neste eixo, encontra-se o nível de energia investida para fazer algo, do esforço no estudo à dedicação no trabalho.
De um lado, investimento baixo, pouca energia. Estamos falando de situações (não exatamente pessoas) em que o “input” é mínimo. No outro extremo, encontra-se a máxima dedicação, o investimento intenso e contínuo em uma tarefa ou em um conjunto de ações.
Eixo vertical: desempenho
Aqui se encontra a régua de performance, que mede os frutos colhidos em uma certa situação. Podem ser notas na escola, promoções no trabalho ou retorno financeiro — qualquer resultado de um certo input.
Na parte inferior da matriz, outputs sofríveis: retorno baixo e insuficiente. Na parte superior, o alto desempenho, ou seja, os bons resultados, os ganhos desejados, o pódio.
Nesta matriz, há dois quadrantes coerentes e dois aparentemente inconsistentes. Vamos examiná-los.
Quadrante I: Coerência desejada (alto empenho e alto desempenho)
O lema aqui é “plantar e colher”. Existe aqui uma coerência esperada e, mais do que isso, desejada. É um daqueles casos em que a correlação reflete, em alguma medida, uma causalidade.
Como nunca sabemos, ao começar um projeto, se o empenho será mesmo recompensado, este quadrante tem uma vantagem adicional: permite colher evidências de que o esforço valeu a pena. Essa experiência positiva acumulada acaba tendo o papel de alimentar outros ciclos semelhantes.
Quadrante II: Assimetria positiva (baixo empenho e alto desempenho)
Quando uma correlação não acontece, o melhor que temos a fazer é elaborar algumas hipóteses explicativas, mesmo se o resultado estiver acima das expectativas. Pensemos no estudante que estuda pouco e vai bem nas provas.
Uma primeira explicação pode ser apenas o desajuste na “altura da barra”. Quando os desafios não são, digamos, desafiadores, pouco ou muito esforço não faz diferença: quase qualquer um consegue atingir os objetivos.
Outra hipótese é a existência de um talento acumulado, uma espécie de “estoque” de potencial que se traduz em resultado mesmo sem muito esforço.
Estamos falando aqui do sujeito que “está sobrando”. O problema é que a “sobra” pode ser provisória: o contexto muda, e nem sempre o “estoque” é suficiente. Acostumada a vencer sem dificuldade, a pessoa pode não se preparar para tempos de maré baixa.
Existe, ainda, uma terceira hipótese, mais rara e mais interessante. Algumas pessoas conseguem, de fato, identificar alavancas de alto impacto com baixo esforço: sabem exatamente o que estudar, o que priorizar, onde o resultado vai aparecer. Não confundir com os “hacks” de produtividade vendidos em toda parte. A autêntica alavanca é escassa e sustentável.
Seja qual for o caso (baixa exigência, talento acumulado ou inteligência estratégica), esse quadrante exige atenção, para que não seja algo fugidio ou ilusório.
Quadrante III: Coerência indesejada (baixo empenho e baixo desempenho)
Quem não planta não colhe. Poderíamos ficar por aqui. Afinal, se a pessoa mal se esforça, provavelmente já sabe das consequências.
No entanto, para evitar o moralismo condenatório, talvez valha a pena dizer que, em alguns casos, essa pode ser uma escolha deliberadíssima.
Na sua obra-prima “Bartleby”, Herman Melville nos apresenta o personagem que se transformou num anti-herói contemporâneo, ao se recusar a fazer as coisas, alegando apenas que “preferiria não fazer”. Se você quer (e pode) não fazer, nenhum problema em estar neste quadrante.
Quadrante IV: Assimetria negativa (alto empenho e baixo desempenho)
Para fechar a matriz, um outro caso de incoerência, porém negativa. Estamos diante da situação em que nem todo esforço é suficiente para gerar o resultado esperado.
Podemos olhar esse quadrante como o oposto simétrico do quadrante II. As hipóteses explicativas seriam, então, as seguintes:
Sarrafo alto demais - essa é a explicação adequada quando a maioria das pessoas, nas mesmas condições, não consegue chegar ao resultado definido. Pode ser meta comercial na empresa, nível de dificuldade de questões em uma prova ou mesmo a compra da casa própria por um trabalhador dedicado.
Déficit de competência - esse é o caso de pessoas que, por alguma razão (circunstancial ou estrutural), ficaram um pouco para trás, mas continuam sendo medidas na mesma régua de outros pares. Há, muito provavelmente, uma falta que precisa ser endereçada.
Problema de método - quando o motivo para o baixo desempenho (apesar do empenho) não está na “barra muito alta” nem em alguma dívida técnica, a hipótese mais provável é a de que o método esteja errado. Se estiver estudando ou trabalhando de forma massificada e pouco estratégica, o combustível do esforço pode não ser suficiente.
A imperfeição dos números
Matrizes 2x2 são apenas mapas (necessariamente imperfeitos) para olhar um território complexo. Nesta matriz, em particular, a imperfeição merece uma ressalva mais explícita, que tem a ver com a “métrica”.
Explico: em outras matrizes em que usamos extremos “baixo” e “alto”, essas palavras trazem apenas posições relativas. Nesta, são substitutos de números em algum contexto.
As escolas dão notas, o trabalho tem metas. Parece matemático o suficiente para que um “4” seja baixo e um “8” seja alto. Mas, na base de cada número, existem ressalvas, premissas discutíveis e muitas camadas de subjetividade. O “placar” é muito menos objetivo do que aparenta.
Isso não significa que devamos jogar os números fora. Basta estarmos cientes dessa imperfeição e que a coloquemos na conta.
Como aproveitar este mapa?
Os quadrantes coerentes são familiares. Os assimétricos, nem tanto. Mas é exatamente aí que a matriz pode ter alguma utilidade: quando empenho e desempenho descasam, há sinal de algo a ser investigado.
E, pelo que vimos, empenho nem sempre é a resposta. O problema pode estar nas metas, nos métodos ou na competência.
Nesse sentido, quem sabe a própria matriz possa funcionar como alavanca: ao tornar o descompasso visível, ajuda a saber qual é o ajuste necessário.





